“Acredito que são as minorias que fazem avançar o mundo”. Em entrevista ao Registo, aquando da sua deslocação, este fim-de-semana ao Alentejo, a jornalista Laurinda Alves, cabeça-de-lista do Movimento Esperança Portugal (MEP) ao Parlamento Europeu, explica os seus objectivos de campanha. E diz que quer percorrer o país pela “realidade mais dura”. A das causas sociais.
Como é que surgiu este convite para se candidatar às Eleições Europeias?
As pessoas sente-se muito distantes da Europa. Olham para a Europa como uma Europa muito regulamentadora, muito normativa, muito burocratizada e pouco humana. É uma pena que assim seja porque, mais que um projecto político e económico, esta União Europeia é uma comunidade de povos e pessoas. Os pais fundadores desta Europa juntaram estas comunidades de povos e pessoas num projecto com uma dimensão humana que se foi perdendo e subvertendo para esta lógica muito economicista e muito politica. Importa recentrar o olhar em relação às origens, aos pais fundadores e aprofundar este lado humanista da Europa.
Qual o”feedback”que está a retirar desta experiência?
Olhando para trás, desde o inicio da campanha em Janeiro, vejo que os últimos quinze anos quase que adivinharam isto. Porque a XIS já era uma revista em contra-corrente, já era uma revista de militância cívica, de expressão de cidadania, de causa, de jornalismo positivo e construtivo. É como se houvesse um princípio de coerência e uma lógica de consequência e agora tivesse a fazer na política aquilo que já estava a fazer no jornalismo, porque eu já não era uma jornalista convencional. Sou uma comunicadora, faço opinião mas já não era uma jornalista repórter.
E as pessoas que tem abordado, como reagem?
As pessoas não me estranham e eu também não estranho a minha posição. Essa naturalidade faz com que as pessoas tenham uma abertura a esta novidade para verem alguém que responde com a sua vida, que dá este passo para a política e que está a defender as mesmas causas que já defendia antes. Não é uma adesão maciça, mas continuada, progressiva, cada vez maior. Eu acredito que são as minorias que fazem avançar o mundo. Eu trabalho com as minorias, pelas minorias e com as minorias. Por isso vejo que esta imensa minoria que se vai deixando transformar por um movimento como MEP também vai ingressando, e isso é uma surpresa feliz.
Qual o objectivo da campanha política que Está a promover em todo o país?
Eu estou a percorrer o país de norte a sul com um duplo objectivo. Por um lado, de me dar a conhecer nesta condição de nova política e de divulgar o programa do partido, por outro, afinar o meu olhar sobre este país real, ou seja, eu conheço bem o país mas agora procuro ter um olhar muito afinado sobre um país a que me candidato representar na Europa.
Que locais tem procurado visitar?
Tenho atravessado o país pela realidade mais dura, a das causas sociais dos excluídos, dos mais desfavorecidos, dos mais frágeis, dos mais vulneráveis, ou seja, as crianças e jovens em risco, as mães adolescentes, as vitimas de violência domestica, os mais idosos, os reclusos, os toxicodependentes, entre outros. Além destes, tenho visitado também projectos de cidadania e projectos na área cultural. Acima de tudo, tem sido uma multiplicação de instituições e associações na área social de forma a poder alcançar a realidade social do país.
O MEP surgiu de um movimento de cidadania. Qual o principal contributo na politica nacional?
O MEP é um partido político novo que nasceu de um movimento de cidadãos sem experiência política. Nenhum de nós depende da política, todos nós temos vida para além da política, nenhum de nós cresceu nas juventudes partidárias com tudo o que isso tem de virtude mas às vezes também de vício. Como nenhum depende da política nem do partido, há uma noção de contributo em acrescentar valor à política nacional. Queremos acrescentar credibilidade à política numa altura em que os políticos estão muito descredibilizados. O facto de haver um movimento de cidadãos que arrisca, que se expõe e que acrescenta protagonistas, novas ideias, novas pessoas e novas medidas no terceiro sector é um movimento de esperança. A política convencional é uma política em transformação. Hoje em dia, a política da esquerda, direita e centro está a evoluir para uma politica de cidadania, uma intervenção cívica e este movimento também representa isso. O partido quer acrescentar medidas concretas para área social, tem a ver com o despertar de consciências da sociedade civil, dos cidadãos, e depois na política agir, intervir e actuar.
Foi nesse sentido que surgiu o slogan da sua campanha,”por uma Europa de rosto humano”?
Sim. O primeiro e último critério de todas as políticas têm de ser o ser humano, a unidade na diversidade, tem de ser o desenvolvimento humano sustentável. Se não criarmos uma relação de responsabilidade entre gerações e se não nos acolhermos uns ao outros, neste momento numa Europa onde vivem 500 milhões de habitantes e 78 milhões estão em situação de pobreza extrema, corremos o risco de multiplicar estes milhões em vez de os conter e minimizar. E porque, em tempos de crise, os pobres ficam mais pobres e os frágeis ficam mais vulneráveis, temos de acrescentar medidas nos centros de decisão, nomeadamente no Parlamento Europeu, para proteger estas pessoas.
Acredita que esse é o caminho para combater a crise social e moral que se instalou em consequência da crise financeira internacional?
Eu acho que todos juntos temos que acrescentar vozes à política de esperança que ficou mais fácil com a eleição do presidente Obama. Ele provou que ninguém consegue atravessar estar crise sozinho, à escala individual, sozinho enquanto país e sozinho no Mundo. Uma Europa unida, mais coesa na sua diversidade é meio caminho andado para atravessar esta crise. Neste sentido, acho que estas crises são sempre crises transformadoras, tempos difíceis e exigentes, mas também são sempre oportunidades de reaprendermos e transformarmos alguma coisa em termos de sociedade, em termos individuais e em termos de paisagem interior. É quando todos precisamos que todos estamos moralmente obrigados a contribuir e a dar.
Verónica Ferreira, Registo, 20-Abril-2009
Related posts:
- As pessoas no centro Na defesa das causas sociais, a jornalista Laurinda Alves já...
- Laurinda Alves defende humanismo na Europa Laurinda Alves, candidata independente do Movimento Esperança Portugal (MEP) às...
- Por uma Europa de rosto humano Laurinda Alves apresentou sábado, dia 2 de Maio, em Castelo...
Related posts brought to you by Yet Another Related Posts Plugin.


Adicionar um comentário