29/07/2010

MEP Europa

Por uma Europa de rosto humano



semanario1

LAURINDA ALVES, CANDIDATA DO MOVIMENTO ESPERANÇA PORTUGAL AO PE

Por que razão uma pessoa ligada ao jornalismo se vira para a política? O que é que esta na génese deste apelo pela vida política? 
 
Eu continuo a fazer na política o que já estava a fazer no jornalismo. A revista XIS, que eu criei, já era um amplificador de vozes, uma expressão de cidadania e de militância cívica. Fazíamos um jornalismo em contracorrente, um jornalismo positivo, construtivo, de causas, e agora defendo na política estas mesmas causas que amplifiquei nos media. Há uma lógica de coerência e um princípio de consequência nesta minha decisão. Sinto que represento os cidadãos na política e as minhas causas são as causas sociais. 
 
Já foi convidada, pelo menos duas vezes, para integrar listas partidárias (em lugar elegível) ao Parlamento Europeu. Recusou sempre. Por que razão decidiu agora aceitar? Ainda mais num cenário mais difícil em termos políticos. 
 
Foi precisamente por atravessarmos tempos difíceis em que nos é exigido a todos darmos passos e comprometermo-nos na construção do bem comum. Em tempos de crise temos que nos fazer todos os dias a pergunta sagrada de Gibran que J.F. Kennedy imortalizou nos seus tempos de campanha eleitoral. A pergunta de Khalil Gibran, autor de O Profeta, é: “Não perguntes à vida o que é que ela te pode dar, pergunta-te o que podes dar à vida.” Esta interrogação, com esta urgência e com este sentido de contributo cívico e social, foram o que me levaram a comprometer com esta nova maneira de fazer política que é a política dos cidadãos que não cresceram nas estruturas partidárias nem dependem da política e representam uma imensa legião de pessoas que não se reconhecem nos políticos convencionais. 
 
Sendo uma mulher de causas sociais, acha que este convite do MEP para encabeçar a lista às europeias, poderá ser interpretado também como um reconhecimento pelo seu trabalho? 
 
Espero sinceramente que sim. 
 
O primeiro desafio eleitoral que o MEP terá vão ser as eleições em que a Laurinda Alves é a cabeça de lista. Sente o peso dessa responsabilidade? 
 
Sinto, acima de tudo, que quero contribuir para que este movimento de cidadãos empenhados em acrescentar valor e valores à política tenha mais visibilidade, impacto, notoriedade, reconhecimento e expressão. E importante enraizar o MEP e esta nova atitude na sociedade e nas mentalidades. Temos que aprofundar a nossa dimensão humanista e criar raízes cívicas mais fundas. A aposta neste exercício de cidadania e o desafio de me candidatar ao Parlamento Europeu, que é um centro de decisão onde se decide a nossa vida todos os dias é, de facto, um desafio de grande responsabilidade mas curiosamente não me pesa. Torna-me responsável mas não me acrescenta peso. Sei que esta certeza vem do facto de contar com uma fabulosa equipa no MEP e MEP Europa. 
 
Não teme que a pouca visibilidade que o partido tem junto da opinião pública possa influenciar negativamente o seu resultado eleitoral? 
 
Há, naturalmente, um longo caminho a percorrer em termos de visibilidade junto da opinião pública. Mas é esse o caminho que estamos a fazer há cinco meses, atravessando o País de norte a sul (ilhas incluídas), dando-nos a conhecer e conhecendo ainda melhor o país real, no momento actual. Confio que são as minorias que fazem avançar o mundo. 
 
Se for eleita deputada ao Parlamento Europeu, que caderno de encargos pretende apresentar? 
 
O caderno de encargos é público, foi definido colectivamente pelo MEP e pelos membros da lista às europeias e deu forma a um pequeno mas ambicioso programa eleitoral que tem na frase “Por uma Europa de Rosto Humano” o seu mote fundamental. Procurámos inspiração no espírito e nos ideais dos fundadores da União Europeia e temperámo-lo com a necessidade de contribuir, desde logo, junto dos portugueses, com uma outra forma de assumir os seus anseios face a este projecto político singular tantas vezes mal compreendido e mal acarinhado. É para evitar esse virar de costas e um certo desprezo ou secundarização do projecto europeu que nos bateremos. 
 
Acredita que pode ser eleita para o Parlamento Europeu? 
 
Acredito e repare que não falo em expectativas irrealistas. Sei que é uma eleição extraordinariamente difícil, mas não é impossível. Só é impossível aquilo que não tentamos e, nesta lógica, estou a tentar contribuir para que o MEP tenha voz e expressão europeia. Acredito que posso ser eleita por uma conjugação de três factores: o reconhecimento público do meu trabalho e da minha militância cívica; o reconhecimento público do trabalho, causas e acção na área social de Rui Marques e o número de pessoas que conseguimos tocar durante esta campanha, com esta mensagem e esta atitude de “novos-políticos” que ampliam a voz dos cidadãos. 
 
Falemos de duas ou três questões concretas. É a favor ou contra o Tratado de Lisboa? Porquê? 
 
Consigo perceber a frustração de quem tem a ambição de querer um projecto europeu, um conjunto de instituições e de regras de entendimento, melhores do que as previstas no Tratado de Lisboa, mas já não entendo bem os que usam essa insatisfação para defender a cristalização do projecto numa etapa anterior que em vários aspectos fundamentais fica aquém do avanço que constitui o Tratado de Lisboa. Como símbolo da bondade deste tratado face àquele que se encontra ainda em vigor, recordo que teremos um Parlamento Europeu com mais competências em áreas até aqui exclusivas da Comissão ou do Conselho, com mais poder para contribuir para as decisões importantes da União Europeia sendo chamado a co-decidir em quase todas as áreas legislativas. O Parlamento Europeu é por excelência o bastião da democracia da União Europeia, caminhar para a sua crescente responsabilização é um avanço muito importante que o Tratado de Lisboa permite. 
 
É favorável à entrada da Turquia na União Europeia? 
 
Da Turquia, dos países balcânicos e de outras nações desde que respeitem o “caderno de encargos” económico, político e civilizacional nos moldes daquele que definimos de comum acordo com os nossos parceiros turcos. Respeitadas estas pré-condições deve seguir-se naturalmente a adesão definitiva e de pleno direito. Seria uma excelente notícia para o Mundo, uma óptima garantia em favor da paz, se a Turquia, no futuro próximo, conseguisse desenvolver as reformas indispensáveis para garantir a entrada plena na União Europeia. 
 
Acha que Durão Barroso deve estar à frente da Comissão Europeia por mais um mandato? 
 
O actual presidente foi ao longo do seu mandato factor de união e gerador de consensos.Foi sempre uma mais-valia para a União Europeia. É isso que devemos reter quando temos que tomar a decisão de apoiar ou não a sua recandidatura para este cargo. O MEP já tomou a sua decisão de princípio, que eu partilho inteiramente: iremos apoiar a recandidatura do actual presidente da Comissão Europeia.

Inês Sousa, in Semanário 24-Abril-2009

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